Talvez Tal vez • Mirela Cabral

Abertura:
27 de novembro de 2025

Exposição:
De 27 de novembro a 30 de dezembro de 2025

Na exposição “Talvez Tal vez”, a artista Mirela Cabral revela ao espectador a dinâmica dos gestos visíveis: pinceladas curtas, outras longas, vazios e áreas de cor que interrompem o movimento.

Uma pintura conduz quem a observa a estados variados, nem sempre previstos por seu criador. Alguns artistas preferem apenas imaginar que seu trabalho despertará uma reação ou impulso, independentemente de ser considerado bom ou ruim. Ao desestabilizar as certezas na intenção de quem cria, estamos diante de uma suspensão do juízo, propondo que o trabalho de arte esteja aberto e distante da autoridade do discurso e do encerramento total do sentido: é isso ou aquilo? Essa indeterminação ocorre desde o primeiro embate com o suporte que abrigará os gestos artísticos e reservará ao espectador a continuidade da elaboração da pintura. Nesse sentido, qualquer produção se manterá viva a partir dos nossos múltiplos entendimentos e percepções enquanto observadores, apesar das escolhas de cada artista em relação ao seu processo de criação, da sua intenção original (se isso existe) e busca de sentido. Em seu texto sobre a dúvida de Cézanne, Merleau-Ponty observa que o “pintor só pode construir uma imagem. É preciso esperar que esta imagem se anime para os outros”.

Em conversas que estabeleci com a artista Mirela Cabral, pude perceber como seu trabalho se distancia de determinações encerradas. Discorda da linearidade da História da Arte hegemônica e suas categorizações limitantes do que é “abstrato” e “figurativo”; e da classificação de gêneros pictóricos e suas hierarquias, como a “paisagem” ou “retrato”, por exemplo. Inquieta-se também com os silenciamentos impostos às mulheres no campo da arte: não apenas aquelas que, mesmo tendo alcançado a possibilidade de criar, foram esquecidas pela escrita oficial, mas sobretudo as anônimas, como suas avós, que talvez tivessem se tornado artistas. Quando apresentei para Mirela a artista Artemisia Gentileschi (1593-1653), concordamos na problematização dos cânones da representação. Para além da questão técnica, qual a diferença entre a heroína bíblica dela, pintada do ponto de vista da sua experiência enquanto mulher em 1600, e a de Caravaggio, por exemplo? Essa pode ser uma maneira de colocar em questão os paradigmas dominantes na historiografia da arte.
As imposições surgem como formas de ordenação do que não pode ser ordenado. A criação artística é muito complexa e múltipla, cheia de talvez. Longe de se apressar nisso ou naquilo, Mirela conta muitas histórias: tal vez, como em tal momento, isso ocorreu… E nem sempre o “tal vez” de suas memórias apareça em seus quadros de forma óbvia, muito menos os títulos entreguem o caminho para uma leitura racional. Por isso, ao olhar seu trabalho, estamos diante de uma mistura de incertezas que fazem parte do que ele pode ser e não do que ele é.

Algumas referências parecem evidentes na superfície pictórica, em seu gesto artístico e naquilo que a inspira enquanto criadora, mas justamente por não se estabelecer em possibilidades únicas, previsíveis e estáveis, nem sempre isso transparece. Estão, portanto, nas entrelinhas da criação. Naquilo que podemos chamar de momentos de respiro: nas referências afetivas de sua família e do seu encontro com a natureza. Respirar faz parte da construção tanto do talvez, no sentido da indeterminação (das idas e vindas ao ateliê durante a negociação com o trabalho em andamento, por exemplo), quanto do tal vez… ou seja, das suas histórias contadas.

Portanto, o dinamismo da criação de uma tela é constituído por momentos de pausas e retornos. No aspecto formal de sua obra, isso se revela na escolha da tinta a óleo, cujo longo tempo de secagem convida à espera. As camadas superficiais revelam ao espectador a dinâmica dos gestos visíveis: pinceladas curtas, outras longas, vazios e áreas de cor que interrompem o movimento. A marca de terebentina lançada ao acaso para criar a base de uma pintura desaparece por trás das cores, mas orienta os próximos passos, assim como os percursos do olhar e da experiência (do tal vez) da artista e de quem observa a composição.
Mirela compartilhou comigo as imagens de diversas obras em andamento da exposição para que eu pudesse acompanhar as camadas na elaboração de cada pintura. Na sua relação com o talvez do processo criativo, a artista realiza inserções de textos ao lado das imagens e estabelece um diálogo conosco (espectadores iniciais), demonstrando sua preocupação em compartilhar e ouvir a opinião de outras pessoas diante de suas dúvidas: “Vocês acham que falta alguma cor? Sinto sobriedade e paz”. Na maneira como ela elabora o “sentir”, também fica evidente as incertezas e a fluidez do processo. “Sinto que faltam poucos ajustes, mas também sinto caminhos percorridos e uma harmonia que devo tomar cuidado para não passar do ponto. Hoje estou olhando com atenção. Até amanhã dou notícias.” O ato de criação, apesar de ser uma elaboração solitária, ocorre também a partir do contato com o outro em que o trabalho passa a ser decifrado. Contudo, o deciframento é algo de cada indivíduo e não ocorre através da imposição de uma leitura definitiva. Nem mesmo a artista pode definir isso. Cada pessoa reage de um modo, enxergando referências que compõem seu repertório pessoal construído até aquele momento. Portanto, a leitura e a sensação diante de um quadro podem ser uma coisa hoje e outra amanhã para uma mesma pessoa. Nossa relação com as descobertas de cada pintura jamais se encerra, nem mesmo para a própria artista.

Há em sua rotina no ateliê uma certa ordenação, como a forma de organizar as telas de acordo com as exposições e demandas do período, as delimitações de turnos para a realização da prática da pintura e por aí vai. A princípio, parece que a presença de ordem em alguns aspectos do cotidiano se contrapõe às incertezas do processo. Contudo, nem mesmo a rotina pode eliminar o acaso e a imprevisibilidade no qual está sujeita a vida. O tal vez se manifesta na observação da colisão das plantas com os canteiros, na variação de tons do céu de São Paulo (ora com nuvens, ora azul, ora cinza) e nos horizontes possíveis de Salvador. Por isso, mais do que se apoiar em referências intelectuais ou imagéticas de outros artistas, seu trabalho se alimenta de uma escuta atenta ao mundo e da sua história pessoal.

Isabel Carvalho é historiadora da arte e pesquisadora independente. Atualmente é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGARTES) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em Arte, Imagem e Escrita.

Mirela Cabral

Cidade
Salvador

Nascimento
1992

Perfil
Pintora

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Abertura:
27 de novembro de 2025

Exposição:
De 27 de novembro a 30 de dezembro de 2025