Paulo Coqueiro •

Abertura:
13 de julho de 2023

Exposição:
De 13 de julho a 12 de julho de 2023

Paulo Coqueiro apresenta a mostra “Outras Expedições”, na qual traz questões relativas às incertezas na produção, usos, circulação e política das imagens, trabalhos de suas últimas pesquisas, abordando os limites da linguagem fotográfica como elemento inspirador para criar ficções. A mostra tem curadoria de Alejandra Muñoz e texto de apresentação de Junia Mortimer.

Paulo Coqueiro nasceu em Boa Nova, município do interior da Bahia. Graduado em Agronomia, é mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atualmente, está realizando seu doutorado na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, sendo coorientado na Escola de Comunicação da UFBA. O trabalho artístico de Coqueiro aborda questões fundamentais relacionadas a produção, uso, circulação e política de imagens. Sua contribuição para a arte contemporânea rendeu-lhe reconhecimento e prêmios internacionais, incluindo a participação na Bienal de Fotografia de Houston, em 2020, e o prêmio da VII Trienal de Fotografia de Hamburgo, em 2018. Foi o primeiro baiano a ser laureado com o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger. Coqueiro já expôs suas obras em exposições individuais em renomados festivais e galerias ao redor do mundo, incluindo a Bienal de Fotografia de Luca, na Itália; o Festival Internacional de Fotografia de Lianzhou, na China; o Centro de Fotografia, de Montevideo; e o Palacete das Artes, em Salvador. Também esteve em exposições coletivas, como as do PhotoVisa, em Krasnodar, Rússia; do Museu de Arte da Bahia (MAB) e Museu de Arte Moderna (MAM), em Salvador-BA; do Museu de Arte Contemporânea – Dragão do Mar, em Fortaleza-CE; da XI Bienal do Recôncavo, em São Félix-BA; entre outras.

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Este trabalho problematiza a relação imagem/cidade através de um discurso visual crítico e iconoclasta da paisagem habitada de Salvador-BA, evidenciando sua fragmentação e seus contrastes estruturais.

Em boa medida, tal investida identifica quão ficcionais são as imagens que sempre representaram a cidade ao longo do tempo e faz surgir uma nova iconografia, reorganizando aquela visualidade que contribuiu para generalizar uma identidade soteropolitana.

Como um artista viajante dos nossos tempos, Paulo Coqueiro realizou expedições sistemáticas, entre 2017 e 2020, ora com roteiros planejados através de pesquisas de paisagens no Google Maps, ora se deixando conduzir à deriva pela cidade, fotografando vistas de estruturas arquitetônicas de bairros tradicionais, do Subúrbio Ferroviário, bem como de bairros não associados ao turismo; de habitações desordenadas nas encostas; de ocupações irregulares ou estabelecidas formalmente.

Neste período de incursões, fez mais de 10 mil fotografias e produziu com elas uma série de panoramas da cidade em colagens digitais. A inspiração para cada novo panorama foi, quase sempre, uma obra icônica (de pintura, gravura, desenho ou fotografia), apropriada pelo autor, pertencente a museus, instituições ou coleções particulares, produzidas desde a fundação da Cidade da Bahia por engenheiros militares, artistas viajantes, pintores, desenhistas e fotógrafos, sendo que estes últimos só chegaram por aqui nos idos de 1839.

A composição dessas novas vistas da cidade, através do deslocamento de paisagens, ruas, prédios e estruturas arquitetônicas para diferentes cercanias da sua origem física e temporal, gera estranheza e enfatiza aspectos da cidade pouco difundidos, integrando ambientes usualmente desconexos, forjando uma interação entre elementos do passado e do presente, deixando mais evidentes as rupturas, a diferenciação e o isolamento entre seus diversos lugares. Finalmente, essas colagens digitais com as novas vistas foram impressas em chapas metálicas, garimpadas em ferros-velhos. Sobre essas superfícies metálicas, Coqueiro fez tratamentos prévios e posteriores à impressão, utilizando produtos químicos abrasivos e fazendo intervenção com tinta a óleo, pastel, lápis, lixa, verniz, resinas etc.

Assim, as placas metálicas impressas, de diferentes tamanhos, espessuras e estados de conservação, permitem estabelecer uma comparação daquelas imagens do passado com as atuais da cidade. Por sua vez, a qualidade ferruginosa do seu material constituinte, vulnerável ao salitre e ao tempo, demonstra a mesma precariedade insular da cidade que se predispõe a representar.

Eu li n’algum lugar que os olhos têm fome – ou antes seria sede?1 A imagem é a água da visão. Do tato ao pensamento. Já chamaram essa fome-sede de voracidade2. Fotografar a cidade parece fazer correr o rio que sacia os olhos, às vezes quase à indigestão. Famigerado olhar: o que tanto se quer ver? O que pouco se quer mostrar? Ou vice-versa.

Cabe um naco generoso de desaprendizagem do imperialismo
num obturador destroçado
Num obturador reformado
Um obturador quase obliterado

Acontece que ver não basta. Tem que pegar o que sobra, das lentes e do ferro velho, e dobrar a realidade, esse metal quase pesado, com a mão da visão. Inscrever num resto de cidade a imagem – imagem que ela própria, metacidade, já deu. Ao verter a imagem sobre a cidade, o que restou dela, um artista enverga as casas sob o peso quase pluma da tinta. Reverbera o som da artesania que supervive nas franjas da Conceição. Naquela ladeira os artífices são muitos, desde antes das panoramas de Mulock. Você escuta os ferros? Repare: também dá pra ouvir as frequências de um brado heroico que permanece malogrando a superfície áspera, suja de imagem. São as vozes do capitaloceno³. Isso que você vê e quer tocar – veja, mas não toque! –, essa sobra de cidade, artefato-imagem, é desvio tanto quanto é reinserção, quase resplandecente, na roda do capital. A gente fica com as migalhas.

Aproxime, chegue mais perto. É preciso beber com os olhos. Só estamos te confundindo pra te fazer ver.

Durante mais de seis anos, Paulo Coqueiro tem feito incursões por esta Cidade da Bahia, coletando imagens e metais. Com as fotografias ele produz as colagens – que remetem ora mais, ora menos diretamente a uma determinada tradição pictórica de Salvador. Em diferentes ferros-velhos, do Uruguai ao Acesso Norte, passando pelo Largo do Tanque e pelo Retiro, Paulo escolheu as placas: aço carbono, ferro, ferro xadrez, aço inox, aço carbono galvanizado, cobre, latão. Ele trata cada material (limpa, lixa, estabiliza), dimensiona as colagens e as imprime nas placas em UV. Mas, pense!, nada está congelado: os metais continuam sua vida e corrompem, sorrateiros, a perenidade de qualquer imagem.

 

1 Gregor Schneider sobre Thomas Demand.
2 Jacques Lacan sobre a natureza maligna que é constitutiva do olhar.
3 Crítica ao Antropoceno, que evidencia a inflexão nos modos de vida e produção gerada pelo capitalismo.

 

Junia Mortimer

Abertura:
13 de julho de 2023

Exposição:
De 13 de julho a 12 de julho de 2023