Arquétipos • O Bastardo

Abertura:
22 de julho de 2025

Exposição:
De 22 de julho a 23 de agosto de 2025

Na exposição Arquétipos, O Bastardo aprofunda sua investigação visual sobre a ancestralidade negra e seus desdobramentos simbólicos no presente, transformando suas figuras em portais entre passado, presente e futuro. A série de obras aqui apresentadas parte de arquétipos ancestrais para tensionar o modo como essas imagens fundadoras atravessam a diáspora e se atualizam em corpos e narrativas contemporâneas.

Aqui, figuras como Exu não aparecem como alegoria ou exotismo, mas como presença ativa: energia em movimento, divindade cotidiana, ponte entre mundos. Exu, mensageiro e senhor das encruzilhadas, é encarnado como ideal filosófico e espiritual que orienta a liberdade radical do povo preto — e, nessa chave, suas aparições nas telas são também ensaio político, educativo e afetivo.

Com sua paleta de cores vívidas — amarelos solares, verdes-terra e azuis cósmicos — o artista propõe uma nova iconografia para corpos pretos, em que a herança ancestral não é evocada como vestígio, mas como potência viva e atual.

O amarelo de Oxum, desenha a cor dos cabelos, a bola de basquete, a coroa na cabeça, o detalhe no boné, a camiseta da seleção, o dread com miçangas, a estrela e o desenho de onça orgulhosamente dispostos na cabeça dos modelos negros, e são aqui entendidos como sinônimo de orgulho.

Azul de Ogum e Iemanjá é também a cor de chegada para o artista. Ela serve como fundo de tela, como alusão ao céu e ao mar, mas também como base para a ostentação de marcas de luxo. Marcas de status têm um papel importante nesse vocabulário de O Bastardo. O símbolo da Louis Vuitton insinuado ao fundo, a palavra Nike na jaqueta, o Speed Cat no capacete e o Drive Fast no boné se transformam em ícones de comunidade negra. Pois, nesse trabalho, o que se representa não é a vitimização, mas a agência; não a escravidão do passado, mas a liberdade utópica do presente e do futuro.

Verde, cor de Oxóssi desenha a diferença. Diferença que destaca o personagem central; diferença no moletom caprichado, no casaco de marca. O azul reina, mas é o verde que sublinha, assinala, desloca e chama pela força dos aquilombamentos contemporâneos.

Nessa exposição, pois, O Bastardo reivindica outra linhagem: aquela que se constrói pelo afeto, pela reinvenção e pela escuta ancestral.  Se os retratos acadêmicos consagraram o poder da branquitude sob símbolos de autoridade e domínio, já na obra desse mensageiro, o gesto artístico se ancora em um afrofuturismo de base — aquele que não busca a estética da ficção científica, apenas, mas sim o futuro possível gestado no presente por mãos negras. É um afrofuturismo terrestre, de chão batido e sabedoria herdada. Os corpos retratados projetam esse tempo porvir com os recursos que ontem lhes foram negados, mas que hoje são aqui cultivados, praticados, encarnados.

Como em outras fases do trabalho do artista, as referências aos símbolos urbanos — marcas de moda, tênis, cortes de cabelo, elementos visuais da cultura — não são meras citações. Funcionam como códigos internos, afirmações de pertencimento, camadas de construção de identidades. Aqui, no entanto, esses elementos se fundem aos signos religiosos e filosóficos da cosmologia africana, traçando um arco que vai do orixá ao sneaker, da encruzilhada ao estúdio de tatuagem, do terreiro ao trap.

Arquétipos é uma exposição que propõe a reconstrução de imagens universais a partir de uma centralidade negra — múltipla, plural, espiritual e política. Se toda pintura carrega um passado, a de O Bastardo também ensaia um amanhã. Um amanhã que escute seus mais velhos para que os mais novos possam criar sem medo. E assim, o artista nos lembra que a verdadeira revolução das imagens começa quando nos vemos nelas — inteiros, múltiplos, complexos.

O azul contrastado com as peles negras, as roupas e adereços os modelos – tão plenos nesses retratos – fazem do conjunto da obra um documento belo e utópico desse Brasil ainda tão desigual e que continua a clamar por democracia.

Arquétipos
Lilia M. Schwarcz

 

O Bastardo

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Abertura:
22 de julho de 2025

Exposição:
De 22 de julho a 23 de agosto de 2025