Abertura:
22 de agosto de 2014
Exposição:
De 22 de agosto a 20 de setembro de 2014
Hildebrando de Castro é pernambucano, mas vive em São Paulo. Esta é sua primeira exposição na Bahia, Ilusões do real, doze pinturas em acrílica sobre tela e mdf.
Assinando os textos da mostra temos o artista Vauluizo Bezerra: “Estas imagens que ora vemos na Paulo Darzé Galeria dizem respeito às atualizações deste artista emblemático, que possui trajetória rica e transformadora pelo que é grifado em sua importância no panorama da arte brasileira. Aqui presenciamos a beleza inteligente de imagens que não guardam nenhuma inocência. São articuladas cuidadosamente no que nos oferece de sua beleza em sua camada mais aparente, além dos muitos substratos que suas abordagens referendam a serviço de um olhar preciso em suas estratégias cirúrgicas”.
A mostra Ilusões do real impressiona pela perfeição da execução e pelo preciosismo do traço ao criar a ilusão da realidade em pinturas que começou com uma viagem do artista pernambucano a Brasília. Ao chegar à cidade, ele ficou encantado com os brise-soleils do prédio anexo da Câmara dos Deputados. Os brises são lâminas, móveis ou não, que impedem o sol de incidir diretamente, mas deixam o ar passar — um marco da arquitetura modernista brasileira. Hildebrando passou três horas fotografando o prédio. Dois anos depois da visita à capital federal, ele resolveu reproduzir este elemento das fachadas dos prédios de Brasília. O resultado é uma pintura, em telas e objetos, que o espectador associa a uma abstração geométrica, mas não, é uma reprodução mesmo, pois os brises — usadas pela primeira vez por Le Corbusier no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio — criam um jogo de forma e cor na fachada, que muda de acordo com a incidência da luz, revelando combinações infinitas.
Na trajetória de Hildebrando de Castro temos em grande parte como tema o corpo humano, intercambiado por suas narrativas, elaborações e o simbólico que expressam, ou partes dele em sua fragmentação, com especial relevo para o coração, mais seres humanos e bonecos para falar de uma infância ou de uma vida perversa, com figuras insólitas, até chegar ao urbano, com as últimas mostras, como esta na Paulo Darzé Galeria de Arte, e a ilusão do real, jogo de formas e cores, por sua incidência da luz e da sombra, da composição e de combinações, chegando a alguns momentos a colocar a pintura na tridimensionalidade, apresentando objetos.
A obra de Hildebrando de Castro é uma obra de representação, os trabalhos possuem como base a fotografia. Não uma fotografia tirada a esmo, mas preparada em seu cenário para tal, o que nos leva a estarmos diante de trabalhos, seja figurativo ou geométrico, em não procurar a realidade em si, mas estreitamente vinculada ao real, uma arte com origem essencialmente na pintura, arte que começou crítica, irônica, de beleza estranha ao mostrar a banalização da vida e da morte, do prazer e da dor, com uma visão que colocava em primeiro plano as obsessões, os fetiches, as exceções, percorrendo o simbólico, e com um humor bem preciso ao tratar a tudo isto. Temática que os críticos colocam como procurando representar aspectos eróticos, religiosos, kitsch.
Dessa forma, a nova exposição marca uma ruptura na obra de Hildebrando, mas só até certo ponto. Sim, a geometria é uma novidade, já que ele nunca foi adepto do concretismo ou do construtivismo. O figurativismo também continua no mesmo lugar. E a luz continua um elemento importante nas pinturas do artista. Não à toa seus trabalhos não começam com croquis, mas com fotografias. “Me chamou a atenção sobretudo a situação rítmica que as lâminas verticais criavam, pois cada movimento singular de abrir ou fechar das janelas geravam uma nova composição cromática com infinitos matizes e valores tonais em função da luz projetada nos elementos. Apenas recorto um detalhe da arquitetura, a composição geométrica”, diz Hildebrando.
Hildebrando de Castro nasceu em Olinda em 1957 e passou sua infância e se desenvolveu profissionalmente no Rio de Janeiro. Autodidata, realizou sua primeira exposição individual no Museu Nacional de Belas Artes, ainda nos anos 1980. Viveu onze anos entre Paris e Nova York e desde 2004 vive em São Paulo. Seu trabalho sempre operou no terreno da representação figurativa, valendo-se da estratégia de empregar o enquadramento e a luz da fotografia como referência para a construção da pintura. Os primeiros trabalhos com pastel seco foram ponto de partida para as experimentações pictóricas que o levaram ao domínio do óleo e da acrílica. Em sua nova série, a realidade da “objetiva” traz substrato para unir geometria e representação, e estabelecer vínculos com o construtivismo e suas vertentes. Em 2013 duas obras do artista foram incorporadas ao acervo do MAC USP.
Nada mais aflitivo para um artista, que uma folha de papel, ou uma tela, em branco: porque daí advém sua condição solitária encoberta pelas sombras de uma multidão.
O exercício da arte é uma aventura pela qual o artista vislumbra suas ações num campo cheio de escaramuças, onde as inúmeras ideações incidem sobre seus atos. O artista é alguém que se oferta à fragilidade pela sua necessidade de absorção, pela sua premência em emitir um silêncio significante, a partir de como administra os ruídos das imagens; agrega para si, essa instância paradoxal: sacerdote e sacrifício. Mas é no vértice destas contradições onde se abre o gozo, a potência deflagrada como soma de suas administrações que lhe insta legitimidade perante as sombras que lhe oprimiam, agora nominada pela imagem de seus rostos que configuram o corpo reconhecível da sociedade que lhe aceita.
Uma vez instituído, o artista opera como um malabarista, sempre no fio da navalha, burlando sua invalidez; porque o meio de arte é eminentemente excludente, porta um gene perverso que lhe é constitutivo: admite com resistência novas verdades que podem se tornar referências estáveis, mas o fantasma da suspensão estará sempre rondando à medida de seu humor cortesão.
Pela minha condição de artista, me faço presente aqui, por uma função meramente mediadora, ou ao menos para emitir um ponto de vista que se abstém da formalização crítica, ou atividade analítica, tendo como objeto a obra de outro artista, já diversamente explorada por pensadores experientes sobre as ideias que estão contidas na espacialidade complexa da obra de Hildebrando de Castro.
A intenção aqui é tentar extrair um ponto de vista que possa vislumbrar algum filtro diferente, pela paridade experiencial nessa vivência que o ato de criar implica, e, sobretudo, por uma identificação mais ou menos aproximada na forma como sempre administrou os riscos pelos quais deliberadamente escolheu, e o tornou um artista consagrado, mesmo trilhando caminhos que suscitaram provocações administradas de forma surpreendente, decidida e corajosa.
Hildebrando de Castro é um artista que em toda sua trajetória deflagra desafios no contrapé das expectativas. Sua obra porta de imediato uma condição pela qual levanta certa tensão, no modo como enreda suas qualidades de irrefutável preciosismo em sua fatura.
Artista eminentemente figurativo, grifado por qualidades técnicas obsessivas, abrindo pela mimese toda sua instrumentação argumentativa, para além da inevitável evocação hiper-realista, porque distante do seu acriticismo. Desenhista de observação pelos cânones tradicionais, usando modelos para a construção de suas narrativas, para em seguida assumir a fotografia como um aporte de agilização processual, além do sintoma que tais usos refletem simbolicamente como ato incurso em seu tempo.
O uso da imagem como recurso para a representação de sua imagética lhe retira das ideias naturalistas do passado, mas se reporta a esse passado instaurando ironicamente novas extensões que se sobrepõem aos valores estéticos instituídos historicamente. O universo onde se apoia as narrativas de Hildebrando de Castro são providos pelo território da arte, do pensamento do homem sobre o homem, suas idiossincrasias e as coisas que cria e se cerca.
Sua arte, portanto, transpõe a ideia da janela que representa, para o espaço do simulacro. Lida com um trânsito entre signos reconhecíveis, situações, comportamentos, erotismo e religiosidade, conceitos instituídos – a seus aditivos provocantes, irônicos, onde está a serviço de deslocamentos que subvertem o usual, que estendem a natureza de suas construções subversivas no encontro de novas subjetividades em busca de elucidações.
A produção de imagens no mundo contemporâneo é excessiva. O olhar é forçado a uma alienação. Há um limite para a decodificação de suas (in) discriminações. Considerando apenas as imagens da arte pela sua história, testemunhamos o que foi filtrado como imagens exemplares: aquelas que trazem em si valores imanentes, em suas metodologias de feitura, que os liga a seu tempo, trazendo para a superfície o esforço que lhes tornaram importantes, como legado do visível, para interesse do olhar saturado, que se conforta ou reage ao que há de reflexo do mundo, do homem, a partir do que rege as éticas, as estéticas, que são enquadramentos políticos da visualidade.
As narrativas de Hildebrando de Castro abrem de imediato, questionamentos dessa politização das imagens. No plano da arte figurativa – usando aqui uma expressão genérica – é onde parece residir o desafio maior. O artista, por possuir esse aparato técnico irretocável, essa qualidade “imitativa”, resvala na necessidade premente em negociar o que pode portar uma condição narcisista de desenhar e pintar com preciosismo. Tornar a esterilidade narcísica – ou meramente diluidora do preciosismo – numa qualidade funcional no léxico do seu tempo, e em sua pertinência de extensão, como linguagem que ativa o que revela de novo, pelas surpresas a que somos hipnoticamente atraídos em seu trabalho.
Assim, o que converte suas imagens em afirmações visuais tão contundentes é essa mistura de precisão técnica irrepreensível às escolhas de variados repertórios que lhe servem como diferencial que chega a ser insolente. Escolhas que em sua soma perfaz sua trajetória que recorre a variadas estratégias, desde a montagem de um cenário que busca a ambiência precisa para o que quer expressar, ao uso e afinidade com modelos vivos recorrentes, que atendem às solicitações de sua imaginação para seus comentários, e arrematam uma espécie de choque térmico quando manipula diferentes aportes contidos na cultura, pelo que apreende de suas iconografias, objetos, situações insólitas, valores ecológicos encontrados entre o sublime e o deboche; na destruição da natureza, ou nas naturezas das destruições, pelos relativismos promovidos na interface da cultura e suas dinâmicas transformativas
Como artista autodidata, admite que provavelmente a origem de seus encaminhamentos independentes dos antolhos acadêmicos lhe tenham conferido suas liberdades de escolhas, pautadas inicialmente em sua memória pessoal de adolescente, já interessado no binômio sagrado\profano, ou, para ser mais preciso, religião e erotismo, onde articulou muitas de suas ideações iconográficas.
Imagens potentes, em geral, sem comentários circundantes que possam diluir sua imanência. A Hidelbrando, importa grifar uma ideia central circundada, via de regra, por fundos brancos ou negros, a dramatizar seu pendor pela estranheza, sexismos, dramaticidade, ironia beirando o humor negro, tangência ao escatológico, perversão, retratos, ludicidade de labor e humor.
Mas em sua trajetória de aproximadamente 25 anos, há a lida solitária, a cozinha oculta em que se dão todos os processamentos de um artista em que, do ponto de vista de sua obra, não há espaços para a sociabilidade: conquista pela retina ou corações expostos, ou melhor, pela cognição entre ambos. Neste sentido, falar de modo – ao menos esquemático – de sua genealogia, ou evolução, a sublinhar seus procedimentos técnicos em função do que contribuiu em suas transformações ao longo destes anos de trabalho incessante, onde reside por lei de causa e efeito a sucessão imbricada de que um resultado sucede a outros.
Assim, o que caracteriza singularmente este artista, é seu modo ímpar de fazer suceder interesses sempre cuidadosamente escolhidos a serviço de uma precisão gritante, mesmo referindo às subjetividades que ele nos traz à tona. De modo resumido, ou apenas nominando os encadeamentos temáticos de Hildebrando, a partir da forma poética que Denise Mattar, curadora de ILUSÕES DO REAL – mostra que apresentou sem intuito retrospectivo, mas que fornece toda a linhagem pela qual é possível compreender a trajetória do artista: Historias Insólitas, Entes Humanos, Inquieto Coração, Corpos Fragmentados, Infância Perversa* e Arquitetura da Luz, que é objeto da mostra aqui presente.
Estas imagens que ora vemos na Paulo Darzé Galeria de Arte dizem respeito às atualizações deste artista emblemático, que possui trajetória rica e transformadora pelo que é grifado em sua importância no panorama da arte brasileira. Aqui presenciamos a beleza inteligente de imagens que não guardam nenhuma inocência. São articuladas cuidadosamente no que nos oferece de sua beleza em sua camada mais aparente, além dos muitos substratos que suas abordagens referendam a serviço de um olhar preciso em suas estratégias cirúrgicas.
O que nesta mostra testemunhamos é mais um de seus surpreendentes posicionamentos como artista que escolhe para suas afirmações visuais verdadeiros desafios de alguém acostumado a reinventar, ou reintroduzir, no campo das imagens, suas possibilidades infinitas. Neste recorte de sua produtividade Hildebrando de Castro abre mais uma vez seu surpreendente repertório, a mapear entre frestas, o que a história torna passado, e ele torna presente. Com estes brise-soleils, se debruça nos estaleiros onde se originaram as construções reflexivas, a arte, e, também, a arquitetura brasileiras em seu limiar hegemônico, onde evoca a acepção moderna instaurada por uma metabolização local.
Estas imagens dos brise-soleils introduz certa contração em relação ao que conhecemos de Hildebrando. Recolhido de seu caráter mais dramático, mas conservando seu princípio de resoluções pictóricos formais impecáveis, mantendo sua ironia de forma mais velada, pela própria natureza do tema que aborda.
Nesta mostra Hildebrando trata da convergência de duas escrituras que permeiam pela sua pintura as disposições de um recorte arquitetônico que enceta as janelas com seu aporte simbólico na história da visualidade, o que remete ao problema autorreferente da arte.
A partir da aparência, e da própria metodologia da arte Concreta, seus campos de cor e forma executados em seu estado geométrico e cromaticamente asséptico, respectivamente, o artista entroniza de imediato uma questão vocabular do ideário concretista.
A reversibilidade, expressão contingencial do impasse concretista – que assinalava o problema de figura/fundo – é escolha deliberada de Hildebrando que não deixa de revolver seus genes constitutivos de temas anteriores, onde o enquadramento de perversão se reveste aqui, de uma sofisticação enredada numa perspectiva puramente retiniana a brincar com sensos de contenções como aporte de seus objetos temas, em estado de suspensão.
Mas nestes brise-soleils há também a posição do artista que aparece mais uma vez na regência de sua politização, no que tange às imagens que, à guisa de suas escolhas, perscruta crítica que sublinha as utopias modernas, nestas abordagens que apontam direções da arte e da arquitetura, nos oferece também um sentido de territorialização desta incursão como problemas localizados, isto é, a incursão de um capítulo da história recente da arte e da cultura brasileira imersa nas extensões do modernismo, onde se origina o começo da hegemonia da arte brasileira.
Não haveria nestas imagens dos brise-soleils, um tipo de urdidura que guarda os mesmos sentidos de perversão que orientaram muitos dos trabalhos de Hildebrando em suas diversas fases anteriores? Não é essa diretiva que ele nos obriga a tomar com a retina em riste a sondar a imaterialidade de algo que evoca o concreto, em sua instância temática, a da arquitetura em seus detalhes funcionais, que apontam para um dispositivo que em certa medida é um impedimento parcial da função transparente que deve possuir as janelas, e que nos provoca a olhar ao que ele mesmo assinala nada haver por sua inexistência suspensa, congelada pelos seus simulacros num detalhe funcional arquitetônico cuja função é reter a luz de forma modular? Não é também, a condição alusiva ao Concretismo, a negação do próprio tema, quando articula seus campos cromáticos a serviço de algo que parece contradito ao que remete?
Assim, me parece que o artista ao construir um jogo de impactante sofisticação e beleza, que parece envolver a ele próprio, o espectador e o que problematiza com o objeto pictórico, as funcionalidades dos objetos enquadrados em seus historicismos, e a maneira que os envolve com suas articulações conceituais, cobertas por uma inteligente abordagem onde nos endereça a atenção para a afirmação de Michel Foucault: A relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita*. A este respeito não me furto em estender nestes jogos visuais de Hildebrando de Castro trazendo de imediato, mais uma vez, Foucault, em sua análise de ‘Las Niñas’ de Velásquez, aqui simplificando a paridade suspensiva do que Hildebrando de Castro ativa como princípio de reversibilidades em suas construções visuais eivadas a um inteligente conceitualismo que me parece conduzir suas operacionalidades através da pintura.
Vauluizo Bezerra Julho 2014
Hildebrando de Castro, ilusões do real
Hildebrando de Castro tem uma trajetória singular, solitária e inteiramente pessoal. Autodidata, sempre teve a ousadia de pintar o que lhe interessa, de tratar obsessivamente um tema e passar a outro assunto quando o considera esgotado. O artista brinca com o desafio de criar a ilusão da realidade, e seu trabalho impressiona pela perfeição da execução – em qualquer uma das técnicas que utiliza. Sua obra é essencialmente narrativa, mas suas histórias não espelham a realidade, elas evocam um mundo paralelo – que o artista enxerga colado ao real. E Hildebrando vê coisas incríveis: a crueldade presente num espeto de corações de galinha, a perversidade inerente ao mundo infantil, a estranheza de seres humanos fantásticos, a agudeza por trás de um olhar flagrado, a impregnação da personalidade num retrato sem foco, a beleza aterrorizante da natureza nas suas manifestações de força. na sua pesquisa mais recente Hildebrando detém a luz que brinca sobre a arquitetura. Fixa sombras, revela detalhes e acentua contrastes. Daí resultam imagens quase concretistas, mas seu trabalho não se esgota na forma, pois, transcendendo a geometria, guarda de forma velada a presença humana que as criou. Sem se deixar guiar por regras ou modismos o artista se impõe como um dos mais originais e criativos do cenário artístico nacional.
Denise Mattar
Abertura:
22 de agosto de 2014
Exposição:
De 22 de agosto a 20 de setembro de 2014




















