Fernando Coelho •

Abertura:
13 de dezembro de 2005

Exposição:
De 13 de dezembro a 13 de janeiro de 2006

Fernando Coelho apresentou este trabalho, após onze anos sem uma mostra individual, com apresentação do também artista Vauluizo Bezerra e do então diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, Heitor Reis, sob o título “Poética Popular”. Exposição com 35 pinturas em acrílica sobre tela.

Fernando Coelho nasceu em Salvador, Bahia, em 1939. Realiza a sua primeira exposição individual em 1964, na galeria Querino. Nestes quarenta e três anos de atividade como desenhista, pintor, escultor, realiza individuais e coletivas em quase todo o Brasil e em países como Itália, Estados Unidos, Dinamarca, Portugal, sendo a sua última exposição individual na Paulo Darzé Galeria de Arte em 2005.

Possui obras em acervos como Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, Museu de Arte Moderna do Rio Grande do Sul, e seus trabalhos constam do “Dicionário de Pintores Brasileiros”, de Walmir Ayala e do “Dicionário Crítico da Pintura no Brasil”, de José Roberto Teixeira Leite. Ressalta-se ainda na sua trajetória a realização de painéis para algumas empresas em Salvador-Bahia, como Banco Comercial, Casaforte, Golden Cross, Centro Empresarial Iguatemi, Centro Administrativo da Bahia, Empreendimentos Odebrecht, Hospital Aliança, Aurenkar Transportes e, em São Paulo, para a Zanini – Cia de Equipamentos Pesados S/A. Em 1978, com texto de Clarival do Prado Valadares, foi publicado o livro “Fernando Coelho – Desenhos”. Vive em Salvador.

Heitor Reis
O conservadorismo imposto pelo sistema, pelo público, pelo mercado e por grande parte da crítica, muitas vezes é bastante cruel em relação à obra de um artista, levando-o à estagnação, à mesmice, transformando-o num copista de si mesmo. Poucos são os que arriscam uma mudança, buscando uma transição no seu fazer artístico. Fernando Coelho é um deles. Da construção de suas paisagens e flores bem elaboradas, da elegância do gestual e do harmônico, nessa temática ele nos remetia a uma sensualidade silenciosa com profundas relações cromáticas na sua estrutura organizacional, estabelecendo uma relação significativa entre a produção artística e a história da arte.

Essas correlações nos transmitiram a certeza do domínio e da informação pictórica de Fernando que, em 1994 nos surpreende com a mostra itinerante “Jogos do Olhar”, iniciada no Museu de Arte Moderna da Bahia, rompendo com a forma pictórica e cromática realizada até então, embarcando radicalmente na direção das vibrações e formas geométricas e, na síntese, com profundo significado lógico desta linguagem.
Tratando-se de um pintor baiano de raízes populares, entende que a poética existente nesses signos é fundamental, e que além de seus elementos decorativos eles têm um valor plástico essencial. Passa a integrar então a pintura à arquitetura e vice-versa, explorando a construção geométrica rigorosa sem concessões ou subjetivismo, utilizando, além do vocabulário, as possibilidades da simplificação pictórica das experiências concretistas.

A mesma sensação de silêncio que nos transmitia na sua fase anterior, permanece no novo momento, só que acrescido, de vibrantes cores, e de uma quase incorporação da sonoridade rítmica da percussão baiana.
No momento da ruptura que surge no “Jogos do Olhar”, sua obra vem povoada de signos populares baianos, evocando as festas de largo e seus elementos, as fitas do Bonfim, conseguindo traduzir visualmente este universo, trilhando por um segmento importante da arte brasileira, coerentemente e de modo articulado, demonstrando que os valores concretos sobrevivem, quando interpretados e elaborados corretamente.
Nesta exposição ele promove, definitivamente em sua obra, o encontro do universo simbólico das manifestações populares com a arte construtiva caminhando no limite entre a figura e o abstrato, mantendo o mesmo lirismo de todas as suas fases.

Com esta exposição Fernando continua no seu rito de passagem do campo existencial que, com a energia e a angústia necessária nos dá a certeza de uma continuada e importante contribuição para a arte na Bahia.

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Vauluizo Bezerra
Nestes novos trabalhos percebo o interesse pela tradição recente da arte brasileira, especialmente no que concerne aos espaços dos movimentos concreto e neo-concreto. Mas a condição desta relação é de um flerte quase platônico que parece lhe servir como mito evocatório, no entanto suficiente para justificar sua contenção de aparência clássica, quase apolínea, embora aja ali, no meio de toda a sua produção recente uma cabeça emblemática que pode já anunciar surpresas futuras.

Como pintor, confesso certa aflição toda vez que me deparo com a difícil e estranha tarefa de falar sobre outro pintor. De algum modo, essa é uma situação análoga a estar diante de uma tela branca com suas impregnações intrínsecas. Ora, uma tela é um objeto em si contido num tensionamento histórico, considerando-se que entre o real e o artista é na obra onde se cristalizam as confluências da noção de individuo, com suas subjetividades, objetividades, seu campo ético, enfim, sua plena expressão social.

O ato criador na arte é uma aventura complexa cujo resultado é incerto e depende de inúmeros aspectos para suas fatorações. Pretender mediar este ato através do discurso verbal é compreender uma espacialidade individual, traduzi-la para um campo coletivo, e estendê-la a uma pertinência histórica.
Num artista como Fernando Coelho – cuja trajetória, consolidada nacionalmente ao longo de mais de três décadas, através de uma obra que, em muitos aspectos, contribuiu para o meu próprio aprimoramento -, essa tensa tarefa dirimi-se na medida em que minhas aproximações de seu trabalho não se dão mais através de vôos rasantes, mas sim numa aterrissagem para reconhecimento in loco dos seus ricos territórios.
De início, penso ser apropriado assinalar, no percurso da obra de Fernando Coelho até os dias de hoje, três distintos movimentos que delineiam genericamente aqueles esforços solitários das escolhas e desistências que um artista processa ao longo de seu trajeto: há, em sua produção, um movimento de contração, nos anos sessenta e setenta, seguido da expansão dos anos oitenta, e da acomodação reflexiva dos anos noventa aos dias atuais. Na gênese do seu amadurecimento, consolidado sobretudo pela exposição da Galeria Ágora, no Rio de Janeiro, em 1976, Fernando Coelho opera uma pintura tensa pelas articulações geométricas, elaborando uma ambiência mediante planos superpostos, caixas e estruturas perspectivas complexas, que aludem claramente ao espaço urbano como cenário para o convívio de alegorias sobre a condição humana, e tendem para o discurso social, tão obrigatório naquela época. Em meu modo de ver, o mais importante daquele período foi a comunhão com o ideário modernista a respeito dos problemas de espaço que aquelas obras continham, delineando certo desejo construtivista; abrindo, assim, alguma perspectiva para a autonomia de sua pintura.
Sintomaticamente, no ano seguinte, 1977, Fernando Coelho, como a suspeitar daquilo que havia de retórico em sua pintura, faz a corajosa opção pelo desenho puro, num esplêndido conjunto que ficou conhecido como a Série Zanini, no qual as problematizações do ideário modernista são passadas a limpo, num exercício de purificação sintática.

Nesses desenhos da Série Zanini¹ encontra-se a semente de um método que permanecerá em toda sua obra posterior, e que, transposto para a pintura, fornecerá uma característica intransferível de seu trabalho, preenchendo os espaços pictóricos com superposições de tom sobre tom, seguindo o principio de preenchimento gráfico do desenho, adotando direções deliberadamente aparentes em busca de campos vibratórios, ora com o uso de algum relevo, ora com a textura por efeito ótico.

A Série Zanini confere a Fernando Coelho o domínio do espaço, sem recorrer à geometria. Seus recursos lineares são predominantemente curvos; a presença das retas acusa o movimento da mão precisa. Esse domínio do espaço e as interpenetrações das figuras conferem leveza e invenção; suas gestões discursivas tangenciam o barroco, dialogam com recursos cubistas e abrem evocações surrealistas: trata-se de uma figuração livre que possibilitará o salto ousado do seu retorno à pintura, nos anos subseqüentes.
Na década de oitenta, Fernando Coelho consolida uma maturação plena, em que a pintura é absoluta, repleta de recursos surpreendentes. Seu repertório obedece a alguns planos temáticos: jardins, flores, paisagens, motivos cujo tratamento lhes conferem, por vezes, uma vocação simbolista; por outras, o prazer de fazer uma pintura em que viceja o erótico. Jacob Klintowitz traduz precisamente esses encaminhamentos: “O dado subjacente que torna este emergir tão forte é a sensualidade que se libera repentinamente. Esta sensualidade, ligação sensorial com o real, permeia todo o seu trabalho e confere às suas figuras a ambigüidade de registro e interpretação, conferindo novo mistério ao já misterioso”.

Internamente, esse período na produção de Fernando Coelho parece romper o conceito ocidental de espaço-tempo. Em muitas de suas pinturas, percebe-se uma estruturação pelo espaçamento, administração do vazio, acaso controlado, fatores que, em alguma medida, o aproximam da estética japonesa: uma pintura de aventura, cuja fatura só é possível pelo absoluto domínio de suas matérias. Mas estas matérias não devem servir apenas as resoluções internas da obra de arte. O senso de autonomia da arte gerada pelo modernismo muitas vezes forçou o artista a agir como matriz de seus ideários, o que provavelmente provocou os ritos reativos da atual geração do Eu.

Fernando Coelho mantém-se hoje em sua escolha pela pintura como agenciadora de sua comunicação com o mundo; pintura como interface possível em seu meio; pintura como adequação da simplicidade matricial brasileira e baiana à sofisticação da um desejo nacional construtivo. Aqui há um novo deslocamento dos seus interesses temáticos, que permeiam sua obra desde 1995, com suas mostras do Museu de Arte Moderna da Bahia e do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, nas quais nos propõe novos jogos, Jogos do olhar, em que o arquétipo construtivo de brasilidade é eleito como cerne. “Ao transformar radicalmente a sua temática Fernando Coelho, não abandonou, entretanto, os seus compromissos básicos com a arte. Para ele o gráfico continua sendo o instrumento de estruturação da obra; antes, as linhas buscavam movimentos mais sinuosos, mais orgânicos, hoje elas se evidenciam em forma, fitas de luz, ripas, serpentinas, algumas vezes carnavalescas, outras vezes tangenciando aspectos da optical art.

Na atual mostra na Paulo Darzé Galeria de Arte, Fernando Coelho corrobora o senso de um construtivismo afetivo escolhido desde Jogos do Olhar. Nesses novos trabalhos, percebo o interesse pela tradição recente da arte brasileira, especialmente no que concerne aos espaços dos movimentos concreto e neoconcreto. Mas a condição desta relação é a de um flerte quase platônico que parece lhe servir como mito evocatório, suficiente, no entanto, para justificar sua contenção de aparência clássica, quase apolínea, embora aja ali, em meio a toda sua produção recente, uma cabeça emblemática que pode já anunciar surpresas futuras, a exemplo dos dois desenhos referendados por Clarival do Prado Valladares, em 1976.
É importante assinalar, nas atuais pinturas de Fernando Coelho, o caráter lúdico que nos remete à sua memória pessoal de infância, comum à maioria de nós, brasileiros. A dificuldade de acesso a brinquedos industrializados, em nossa sociedade, abre um formidável espaço de invenção, que resulta na existência de um importante design popular, carente de urgente inventário. Fernando Coelho revolve sua memória e nos conduz através de sua obra, do prazer dos encaixes, dessas articulações geométricas que o olhar acompanha e se satisfaz com suas acomodações; o prazer de conferir, no seu colorismo, a alegria vocacional brasileira; a plena satisfação em reconhecer, aqui e ali, formas e objetos que compõem uma iconografia do ideário festeiro das manifestações populares.

No preciso momento em que concluo este texto, Fernando me telefona e descreve, com alegria de menino, o surgimento de um elemento novo em uma pintura em andamento: um ratinho que povoou nossa infância, construído em papelão, com carretel de linha agregado a seu corpo, com uma borrachinha que tencionava o carretel. Assim que puxávamos a linha que saía do seu dorso, o brinquedo punha-se em disparada com movimentos similares ao de um camundongo. Brinquedos como esses se perfilavam em nossos interesses juntos com os cata-ventos, “Mané Gostoso”, apitos de madeira, peões, carrosséis, aviões de flandres, etc. Eram brinquedos que envolviam uma noção de física aplicada, básica pela sua simplicidade, mas inventiva pelos seus surpreendentes efeitos criativos.

Essa descrição do surgimento de um elemento à revelia de sua escolha, traz à tona a presença do acaso contido em suas pinturas anteriores, em que o artista não tinha o controle que tem nas pinturas atuais, pela própria natureza diferente de métodos. Fernando Coelho constrói hoje os seus quadros, aplicando-lhes o recurso de recorte de papéis pintados, segundo necessidades específicas, maneira pela qual nos remete a Matisse no período das colagens. O artista estrutura uma linha geral do trabalho e constrói um dédalo de pequenos elementos geométricos, feitos em cartões recortados e pintados que, fixados provisoriamente à superfície da tela, permite a Fernando processar, por eliminação ou acréscimo, o resultado que lhe venha a ser aprazível.
Esse ludismo de Fernando Coelho não é apenas evocatório de sua memória infantil, num tempo em que ele fabricava seus próprios carrinhos, ícones, aliás, muito presente em suas pinturas atuais, pela observação dos carrinhos de café e outras variações encontradas nas ruas de Salvador. Trata-se mesmo de uma vocação de sua natureza: Fernando Coelho é um artista de variados pragmatismos, tendo exercido profissões como designer, publicitário e arquiteto, atividades que reforçam o seu caráter natural para o lúdico como prazer no fazer, e como método estrutural de suas novas pinturas, que riem quando festejam conosco e se hieratizam quando pensam sobre nós.

¹ “Em agosto de 1976, ao fazer o catálogo de sua mais recente exposição, Fernando Coelho impôs dois de seus desenhos, dos mais insólitos, para questionar sobre sua pintura ricamente exemplificada. Desse modo, submetia o seu desenho ao confronto da pintura, sem outro propósito que o de validar o atributo mais intimo da obra. Aqueles dois desenhos do catálogo de 1976 chegavam como mensageiros de uma série a ser encetada no período imediato, na qual Fernando Coelho se dispunha a inquirir sobre a figura e o espaço”. Clarival do Prado Valladares, in Catálogo Fernando Coelho da Série Zanini S.A.
² Marcus de Lontra Costa, in Catálogo Jogos do Olhar, 1995.
Vauluízo Bezerra
Artista plástico
novembro de 2005

Abertura:
13 de dezembro de 2005

Exposição:
De 13 de dezembro a 13 de janeiro de 2006