Sol a pino • Isabela Seifarth

Abertura:
30 de janeiro de 2026

Exposição:
De 30 de janeiro a 28 de fevereiro de 2026

Na exposição “Sol a pino”, a artista Isabela Seifarth  propõe a celebração da vida experienciada em coletividade.

Cartografias de sol a sol

A mesa larga que se estende em conforto. Os corpos se aproximam em intimidade, espaço compartilhado, comunhão cotidiana e sagrada. Pães, frutas, pratos, copos e cerveja são o pretexto para o encontro. Ao centro, o sol antropomórfico observa a cena, vigilante, abençoando céu e mesa, natureza e gente. Aqui, o tempo desacelera, cadenciado, como no xote que guia nossa história. Uma ode à vida que saúda a existência.

A exposição Sol a pino, de Isabela Seifarth, na Paulo Darzé Galeria, propõe a celebração da vida experienciada em coletividade. A artista mostra ao público mapas do cotidiano, representando as festividades baianas e os elementos que nos lembram de quem somos e de onde viemos.

Isabela Seifarth, ao inserir em suas obras a cartografia, como em Nascimento de um mundo inventado (2025), mostra-nos que cada elemento em suas composições serve para abraçar e sustentar as narrativas que permeiam o povo do sertão em sua multiplicidade. Sob essa perspectiva, suas obras operam como leituras da história e da experiência coletiva, mapeando aquilo que há de mais potente no convívio humano. Festa e rito compartilham a mesma cena, sem hierarquias rígidas: trata-se de um espaço onde o encontro é princípio organizador e onde a convivência se constrói a partir da proximidade dos corpos, dos gestos e das celebrações.

O acúmulo e o excesso de figuras, recorrentes em suas pinturas, não devem ser compreendidos como simples exuberância visual, mas como uma recusa ao silêncio e ao vazio. Nessa densa catalogação de personagens, objetos e cenas, a artista apresenta um repertório múltiplo, no qual o Barroco Baiano dialoga com a culinária do Recôncavo, com a cerveja gelada partilhada ao longo de um extenso calendário festivo e com a música, que se faz presente tanto pela imagem central da sanfona quanto pela representação discreta, de João Gomes, inserida em meio à multidão em uma das obras.

A exposição propõe, assim, o sertão como um território vivo, no qual os mapas deixam de organizar o espaço segundo a lógica da precisão técnica e passam a se constituir a partir da imersão sensível da festa, do rito e do corpo coletivo. Essa compreensão aproxima-se das leituras críticas da cartografia que entendem a imagem como um dispositivo cultural e simbólico, capaz de produzir sentidos sobre o território para além de sua função representacional. Em diálogo com as cartografias medievais e renascentistas, frequentemente povoadas por seres quiméricos, sereias e serpentes, a artista inscreve a baianidade como um campo de coexistência entre o sagrado e o profano e entre o histórico e o mítico, evidenciando formas de conhecimento que escapam aos projetos de uma racionalidade moderna.

Ao longo da década de 1990, observamos[1] diferentes modos de leitura das imagens cartográficas, destacando o entendimento de que mapas não são representações neutras do espaço, mas construções culturais atravessadas por mensagens políticas. Essas mensagens se manifestam tanto nos discursos explícitos quanto nas distorções, ausências, convenções simbólicas e, de modo significativo, nas decorações, nas molduras que margeiam esses registros. Ainda nessa mesma análise[2], a cartografia aparece para retratar o espaço vivido, o bairro, a escola, a realidade, fazendo com que se percebam as mudanças e a permanência dos lugares, a distribuição dos objetos, reportando-se às memórias e à leitura de realidades por meio de representações.

As figuras quiméricas que emergem nas pinturas operam como elementos fabulares, como lembranças de um passado que permanece ativo no território, manifestando-se por meio de imagens, gestos e práticas culturais que atravessam o tempo. Nesse sentido, esses elementos funcionam como marcas de uma memória coletiva que se atualiza continuamente, revelando a permanência de estruturas simbólicas na vida social. Por exemplo, a figura do sol, que está presente em quase todas as obras, funcionava como referencial nos mapas para a navegação. O sol nessas terras é sempre bem-vindo, companheiro e testemunha das histórias que nascem. Outro elemento recorrente é a estrela nas cores verde e amarelo, demarcando o território com uma bandeira do Brasil.

Se Carybé elaborou uma síntese visual idealizada de uma ideia de povo da Bahia que se alastrou como a imagem predominante de baianidade, em Sol a pino, Isabela Seifarth desloca a síntese e a idealização, ao enfatizar a necessidade de observar os recortes culturais em sua pluralidade e colocá-los em relação. Suas obras evidenciam que o sincretismo religioso no Brasil não se restringe ao campo da espiritualidade, mas atravessa a cultura e os costumes, produzindo modos específicos de ocupação do espaço. O sincretismo[3] opera como um sistema dinâmico de coexistência simbólica, no qual diferentes matrizes culturais se articulam para sobreviverem no mesmo espaço. O acúmulo mostra-se como necessário, como parte da tradição. Esse convívio entre costumes e crenças rompe com a separação entre o público e o privado, fazendo das ruas a extensão da casa e do cotidiano um espaço permeado pelo rito. É nesse contexto que os altares surgem de forma recorrente nas obras, reunindo representações de santos católicos, orixás, querubins, obras que lembram Mestre Vitalino e ceramistas de Caruaru, retratos de entes queridos e objetos que também se inserem na liturgia sagrada como velas, ícones, bebidas alcoólicas e comida, configurando uma visualidade em que o sagrado se manifesta na experiência ordinária e compartilhada do território.

Nesse contexto, o Barroco se insere nas obras não apenas como estilo, mas como vivência histórica associada aos primeiros séculos da colonização, marcada por processos de mescla, adaptação e reinvenção cultural. Aqui, ele continua presente na visualidade da cidade, sobreposto, ademais, por outras camadas culturais. O Barroco Baiano constitui-se justamente no acúmulo, nessa convivência entre opostos, que, em outros contextos, seriam tratados como antagônicos, mas que, aqui, são cultivados e preservados lado a lado. O duplo manifesta-se tanto na presença de Ibeji, nas festividades de Cosme e Damião, quanto nas esculturas dos anjos barrocos, os chamados “querubins”, tradicionalmente representados como jovens cupidos, resquícios míticos da fusão entre cristianismo e paganismo.

Se na arte contemporânea por vezes o excesso foi rejeitado em favor da economia formal, nas obras de Isabela Seifarth, o excesso  se afirma como principal recurso visual. No entanto, esse aglomerado de figuras não se apresenta de maneira caótica: cada camada de personagens e objetos estabelece diálogos internos, ocupando um lugar preciso na composição. Trata-se de uma artista que planeja minuciosamente suas pinturas para que um senso de equilíbrio possa prevalecer no olhar do espectador. As obras funcionam, assim, como guias sensíveis para decifrar aquilo que há de mais humano em nós: o contato com o outro.

As obras dialogam com produções de artistas como Diego Rivera, Thiago Martins de Mello e Marcela Cantuária, seja pela paleta cromática, pela pintura em camadas ou pelo viés político, que ora se apresenta diluído na celebração, ora se impõe por meio do relato. O diálogo com o muralismo se estabelece pela escala monumental e pelo uso do espaço, a predominância de cores primárias e a frontalidade. As pinturas exigem do espectador uma participação ativa: para contemplá-las, é necessário tomar distância, percorrer a superfície quadrante por quadrante, buscar referências que remetam ao cotidiano, a uma vivência pessoal, a uma memória festiva do 2 de julho ou a um almoço de domingo ensolarado na casa da avó.

De todo modo são obras políticas; afinal, nada mais político que priorizar e demarcar a alegria, povoando o espaço com o múltiplo e o diverso, em defesa do afeto e da alegria necessária para sobreviver às adversidades. São grandes narrativas visuais, de ritmo próprio e caráter teatral, cenas que tensionam os limites da moldura barroca e mobilizam a memória coletiva. Ao organizar o mundo, essas imagens produzem imaginários e legitimam outras narrativas, funcionando como mapas em que território, corpo e memória se sobrepõem, sem que se estabeleça uma hierarquia estável entre eles.

Assim, Sol a pino, de Isabela Seifarth, vem em ritmo caminhado, andar manso, no corpo a corpo, batidas secas, passo leve, criando um balanço constante como a respiração, lembrando-nos que estamos em dança, em constante movimento. Seja na mesa, na rua ou no altar, suas obras acolhem o sagrado e privilegiam o gesto simples, evidenciando que a alegria é fundamento.

Mayã Fernandes

Curadora e historiadora da arte

Isabela Seifarth

Cidade
Salvador

Nascimento
1989

Perfil
Pintora

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Abertura:
30 de janeiro de 2026

Exposição:
De 30 de janeiro a 28 de fevereiro de 2026