Arranjos •

Abertura:
22 de julho de 2025

Exposição:
De 22 de julho a 23 de agosto de 2025

Abertura da exposição

A mostra “Arranjos” será inaugurada no dia de 22 de julho, terça-feira , às 19h, e ficará disponível para visitação até o dia 23 de agosto.

Na exposição “Arranjos”, Bernardo Conceição nos convida a pensar a concepção etimológica da palavra arranjo, tomando as vivências do seu cotidiano manifestadas em sua produção artística. Os deslocamentos produzidos pelo artista, nesse balaio de cores e sabores, ativam sentidos que expandem nossos encontros com abundâncias e amores.

Os arranjos podem ser compreendidos como uma constituição de elementos que se organizam a partir dos acordos, combinados e contratos. Ditos e não ditos. Finitos e infinitos. Elementares na configuração social do povo brasileiro, eles se expressam nas mais distintas dinâmicas e diferentes formas. Bernardo Conceição nos convida a pensar a concepção etimológica da palavra “arranjo”, tomando as vivências do seu cotidiano manifestadas em sua produção artística. Os deslocamentos produzidos pelo artista, nesse balaio de cores e sabores, ativam sentidos que expandem nossos encontros com abundâncias e amores.

Mergulhados na herança negra, na diáspora, os traços que se figuram nas suas obras revelam um mar de memórias e apresentam contornos simbólicos daquilo que é cura e alimento, afeto e conhecimento, amor e sustento. Característica marcante de sua produção, o artista explora a amplitude da poética da negrura mediada por uma temporalidade do agora, que, em seus versos em cores, aponta traços de um Brasil de fato. Ao compor linhas guias expressivas representadas nas peles negras, incorpora nos elementos pictóricos o retrato de um povo que é marcado por atos de cuidado e amor, que advêm da terra, do sol, do mar. Persistente em explorar códigos desde a repetição, estrutura atos dialógicos em formato de convite para se ver o que não se pode olhar de uma só vez. Essa tática determina retornar à presença negra que se conecta e conflui em vibrantes contextos sob as nossas cabeças e corações. As histórias contadas pelo povo negro brasileiro apresentam modos de vida em detrimento do cânone racista que parece insistir sobre nossos corpos e vidas. Contra os terrores da intolerância religiosa aplicados e acentuados na contemporaneidade, as religiões de matrizes africanas na diáspora, nessa terra pindorâmica chamada Brasil, têm sido resistentes. No candomblé, umbanda, jurema, entre outras manifestações da religiosidade negra e diaspórica, inquices, voduns e orixás entidades de nações bantos, jejes e iorubás introduzem no mundo formas outras, olhares outros, a partir da afirmação da presença viva e pujante de uma afrorreligiosidade na cultura brasileira. Confirmado no Ilê Axé Odé Yeyê Ibomin, que é regido pela senhora dos rios, cachoeiras e águas doces, protetora da fertilidade e maternidade, da sedução e do amor, e pelo protetor da natureza e dos animais, compositor da fartura, abundância e prosperidade, quem possui sabedoria e astúcia no jogo, uma certeira e única flecha, encontra nesse espaço de afeto e cuidado as novas coisas que sempre acontecem.

Nesse arranjo afrodiaspórico que é a composição de uma oferta ao mundo, Bernardo, que é filho do senhor das folhas e ervas, guardião dos mistérios e dos encantamentos, e da senhora dos ventos e tempestades, nos alimenta com suas obras expressivas, identidades daquilo que se vive em um cotidiano de uma pessoa de terreiro, enquanto movimento de cura, força e coragem. O artista transmuta em cores, gestos e contornos as energias e os encantamentos que nasceram com ele. Lança o convite para se viver o que acontece de outra forma, para entender o mundo e para sair do nublado. Os Ìtans, nos arranjos dispostos pelo artista, na composição dessa exposição, contam narrativas que nos possibilitam apreender dinâmicas de um mundo outro que pouco experimentamos, mas que aqui saboreamos ao compreender que nossas peles, ontem alvas, não são mais a barata carne negra do mercado. No perene exercício do convite à contemplação, daquilo que grita em nós, o percurso para o qual Bernardo Conceição nos chama à atenção está nos detalhes daquilo que ele afirma na poética do encontro. A fartura das seletas folhas, flores, frutas, enquanto mantos sobre a pele negra nos trabalhos “Manto de Providência”, “Genuinamente meu”, “Feira de quarta”, “Vivo do que tenho”, “Semear o chão” e “Tudo que preciso para parar de chorar”, expressa um conjunto de vetores sobre os quais o artista vem se debruçando em sua pesquisa, que é a representação das pessoas negras e brasileiras sendo alimentadas pela abundância, e não mais pela escassez.

As composições “De mães diferentes” e “Para não cair sozinha” revelam o mais natural aprendizado da herança diaspórica: o ato coletivo do amor e do afeto, para permanecer de pé. “O sol e o amanhecer” e “Para não se afogar, mergulhe” dimensionam olhares e não olhares, que, manifestados em um tempo conduzido por tempos de respiro, expressam a dimensão do zelar, do cuidar e do acolher. “Pássaro Bonito”, “A imagem das nuvens no vento”, “Sentindo a luz do sol”, “Quem vê pensa que é raso”, “Costurando com luz a escuridão”, “Oyá de Shirley”, “Histórias do mar”, “Livre ninguém pode me segurar”, “Duas cabeças” e “Para fazer milagre” são, como as demais obras, um convite ao lugar de ser, pertencer e entregar ao mundo uma historiografia daquilo que sempre esteve dentro de si: os arranjos para uma nova vida e um novo viver. As dinâmicas simbólicas que encontramos em suas expressões visuais revelam encontro com a pluralidade daquilo que somos enquanto pessoas negras, pois negro é lindo! Conforme sinaliza outro poeta da arte, Jorge Ben Jor, diante das nossas características e essencialidades, nós, pessoas negras, constituímos a maior parte da população brasileira e, na constituição desse conjunto de obras sedimentadas do artista, observamos a nossa tão plural beleza. Temos verificado no decorrer da construção das visualidades no Brasil arranjos de uma ampla difusão da produção artística negro-brasileira, porque pessoas negras são artistas.

O Museu de Arte Negra, movimentado por Abdias Nascimento; A Mão Afro-Brasileira: significado da contribuição artística e histórica, organizada por Emanoel Araujo; Histórias Afro-Atlânticas, desenvolvida por Hélio Menezes, Ayrson Heráclito, Lilia Moritz Schwarcz e Adriano Pedrosa; Dos Brasis: arte e pensamento negro, dimensionada por Igor Simões, Lorraine Mendes e Marcelo Campos, proposta por Deri Andrade; Afro-Brasilidade, condicionada por Paulo Herkenhoff e João Vitor Guimarães, entre outros trabalhos, sejam coletivos ou individuais, revelam intencionalidades poéticas e políticas que têm sido produzidas ao longo do tempo pelas mãos de pessoas negras. Envoltos em arranjos de frutas, folhagens, espelhos e linhas guias de vida, atravessados por dinâmicas simbólicas e referências sincréticas, o que se propõe nesse universo de práticas de encontros com nossos signos e sentidos dinamiza movimentos para olhar para os rostos e corpos dos negros brasileiros. Nesse percurso, o sentimento de esperança que o artista compartilha para as nossas cabeças e corações, com abundâncias e amores, são os arranjos, para comermos e nos alimentarmos de vida. “Arranjos” é mais uma composição nesse universo de formulações que têm sido fundamentadas no campo das artes visuais. “Arranjos” é uma pesquisa centrada na elaboração de gestos, adornos e representações do torna-se negro cotidianamente, com irmandade e prosperidade. “Arranjos” é um portal em que opostos que se atraem e iguais se aproximam. Aqui, os arranjos são uma oferenda, uma partilha de comensalidades de Bernardo Conceição ao mundo.

LEONARDO MORAES
Rio de Janeiro, 21/05/2025

Abertura:
22 de julho de 2025

Exposição:
De 22 de julho a 23 de agosto de 2025