Abertura:
08 de novembro de 2022
Exposição:
De 08 de novembro a 10 de dezembro de 2022
TESSITURA DA ALVORADA DE ANDERSON A.C.
INAUGURA UM NOVO ESPAÇO NA PAULO DARZÉ GALERIA
EM SETEMBRO DE 2022
Anderson AC é um dos novos nomes da arte baiana e integra o acervo da Paulo Darzé Galeria. Seu trabalho utiliza de diversas linguagens como a pintura, o grafite, a colagem, a arte postal, o vídeo, a fotografia digital, a literatura, o uso de imagens e documentos familiares, vestígios, deslocamentos, documentos, relatos e imagens, memórias e registros pelos quais se desdobra numa constante intervenção artística para a criação das composições estéticas que servem de suporte para seus trabalhos, onde cria, desenha, cola, pinta, fotografa, interfere; onde questiona e discute processos, como um espaço de concepção, reflexão e desenvolvimento destas ideias; onde revela um conceito elaborado de vivência através da memória e da sobreposição de linguagens artísticas, na qual o caráter itinerante do processo de documentação dos fatos cotidianos cria o espaço de experimentação através de um diálogo entre arte e vida, de um cotidiano transformado em arte.
Anderson AC, nasceu em 1979 – Salvador/Bahia, onde vive e trabalha. Em seus projetos, o artista parte de algum objeto antigo em busca da construção de séries de trabalhos; são os objetos/portais, fios condutores que criam relações entre passado e presente, permitindo ao artista abordar questões históricas, não apenas a partir de uma mera e simples escolha, mas de questões impostas pelo destino, o que cria uma real ligação entre arte e vida, constituindo a ideia de que nada está solto no universo: tudo está ligado.
Expondo regularmente em festivais, bienais, trienais e mostras coletivas significativas, esteve na 7ª edição do SP-Arte, no pavilhão Bienal, Ibirapuera São Paulo. Tem na sua trajetória a participação no coletivo de grafite 071crew, onde realizou várias intervenções urbanas na cidade, duramente os anos 2000. A partir de 2007 começou a se apresentar em mostras coletivas, com destaque para a Original Vandal Style, única exposição do coletivo, e as exposições 3 Pontes na II Trienal de Luanda; Arte Lusófona Contemporânea, no Memorial da América Latina; em São Paulo; Afetos Roubados no Tempo, no Centro Cultural da Caixa, em Salvador; e Muros, coletiva que reuniu 11 grafiteiros baianos na galeria do Ferrão, no Pelourinho, também em Salvador. Realizou uma residência artística em dois locais relacionados com suas origens – primeiro em Luanda, Angola, durante a II Trienal, que teve como temas as Geografias Emocionas – Arte e Afetos; e depois em Évora, Portugal, onde realizou sua primeira exposição individual. Duas outras mostras foram realizadas em São Paulo, Galeria Sosso, e, em Strasburgo, França, na galeria do Conselho da Europa. Sua última exposição individual foi a primeira em Salvador, e se chamou O diário de bordo ou O livro dos dias, no ACBEU (Associação Cultural Brasil-Estados Unidos), em 2017. Em 2019 apresentou a mostra Pintura Muralista, num dos pilares da resistência artística visual da arte negra no Brasil, o Museu Afro-Brasil em São Paulo. Segundo Emanuel Araujo, curador e diretor do Museu, “Anderson AC é um artista baiano proeminente com uma potente produção marcada pela pintura grossa e expressionista, e a relação entre murais urbanos e a consciência sobre as contradições de um mundo cheio de diferenças sociais, e estranhezas religiosas.
Apresentação da mostra por Marcelo Rezende
O que “Tessitura da Alvorada” representa? Essa não é, de forma alguma, uma questão menor; é parte de toda a história da pintura e de nossa relação com as imagens, a representação. Mas é aqui, nesse degrau inicial da longa escalada proposta por Anderson A.C., que o primeiro tropeço em nosso entendimento se torna um risco.
Ainda que elementos de sua pesquisa artística de mais de uma década estejam presentes de forma evidente (os códigos visuais da arte do grafitti, a cultural africana em Salvador como matriz e toda a simbologia religiosa e social), “Tessitura da Alvorada” é, a um só tempo, um prosseguimento e uma radical atitude de rompimento em e com a trajetória do artista: o que vemos não são pinturas – em seu sentido mais elementar – , mas um outro objeto, algo que pede uma outra definição, uma outra categoria na qual as imagens pintadas são apenas uma camada inicial em nome do próprio entendimento da obra: no lugar da pintura, um objeto pictórico, ativo, em permanente ação diante de suas próprias circunstâncias.
As circunstâncias brasileiras (passadas e presentes, talvez de uma forma nunca tão evidente) é aquilo que se sabe: o lento genocídio das populações indígenas, a violência social, o achatamento da presença feminina na esfera política, o racismo como estrutura de base, o ódio à floresta, a pobreza e a colonização do outro e todos os mecanismos de destruição, também simbólica, em nome da geração de um suposto progresso e desenvolvimento numa carnavalização temperada em histeria, ansiedade e crueldade, sempre apoteótica, do mito (fascista) da decadência dos reais valores nacionais.
A descrição dessas circunstâncias é em tudo negativa. De todo modo, é necessário observar o que há de positivo nesse oceano de negatividade: a existência de um permanente estado de luta em oposição a esse regime de forças. Não há uma neutralidade artística possível, porque toda luta política cria uma forma estética. Os objetos pictóricos de Anderson A.C operam precisamente nesse campo, na definição mesmo da ideia de tessitura, que pode ser definida, na língua portuguesa, como o encadeamento entre as partes de um todo. A tessitura demanda um gesto necessariamente político, e esse gesto é a chave para a uma melhor compreensão da posição ocupada por essa nova série de trabalhos.
Se a forma estética não pode ser dissociada da luta e de suas circunstâncias políticas, a escolha dos retalhos para a composição dos objetos pictóricos de “Tessitura da Alvorada” não é, então, de maneira alguma, gratuita. É o que sustenta o objeto pictórico em toda sua dimensão, porque com ele, os retalhos, é capaz de transportar uma vitória do passado para o conflito do presente. Os retalhos não apenas representam algo, eles são a parte ativa de toda obra, os restos de uma precisa circunstância histórica: a participação dos operários da indústria têxtil durante a greve geral na cidade de Salvador em 1919.
No período, dos “283.422 habitantes contabilizados, 31,1%, ou seja, 88.144 seriam brancos e 68,9%, ou seja, 195.277 seriam negros e mestiços (…), em grande parte feminina, e acima de tudo negra, mas nem por isso passiva, a classe trabalhadora de Salvador era, então, uma multidão híbrida, saída da escravidão, formada por homens e mulheres que labutavam como proletários fabris, totalmente desprovidos dos meios de produção tendo como único meio de vida a venda de sua força de trabalho (…) A greve geral de junho de 1919 foi um fenômeno extraordinário não só por ter sido o primeiro movimento da classe operária capaz de paralisar toda a cidade do Salvador, mas também por ter legado para o operariado (ou para parte dele) um novo padrão de comportamento político frente às suas necessidades imediatas. O movimento operário baiano de 1919 diferenciou-se do de sua fase anterior principalmente por ter superado seu antigo caráter puramente defensivo, quando os operários apenas lutavam em condições adversas para manter conquistas pré-existentes, e por ter passado para um movimento ofensivo, apresentando reivindicações novas, ligadas, inclusive, ao processo de trabalho”.[1]
Quase a totalidade desse complexo industrial têxtil do início do século passado se encontrava na região hoje definida como áreas suburbanas da capital baiana, o mesmo território no qual Anderson A.C. tem como seu espaço social e de trabalho. O quanto há de presente nesse passado do ano de 1919? Nos retalhos de “Tessitura da Alvorada” há um caráter de arqueologia e memória, e as figuras pintadas sobre esses fragmentos de tecido transitam entre uma série de processos ainda inacabados, flutuando sobre conflitos jamais plenamente resolvidos. Decididamente, esses objetos pictóricos não se resolvem apenas nas imagens visíveis aos olhos, porque demandam uma outra sensibilidade. Não se trata de exaltação das formas, não se trata apenas do que esses objetos mostram, mas sobretudo do que irradiam em nome da reconstrução de uma cultura agora em pleno colapso.
[1] Aldrin Armstrong Silva Castellucci. Salvador dos Operários: Uma História da Greve Geral de 1919 na Bahia. UFBA. 2001.
DO RASGO A CURA
por Thais Darzé
A primeira claridade da manhã que desponta no horizonte, aqueles primeiros instantes que anunciam a chegada de um novo dia, é um novo ciclo num universo de possibilidades que se renovam e se apresentam todos os dias a cada manhã. No contexto religioso afro-brasileiro é também o horário que se iniciam diversas cerimônias nas comunidades de terreiro. É justamente por essa ótica que o artista plástico Anderson Cunha escolheu “Alvorada” como título de sua exposição, que para ele significa um processo de renovação dentro de sua própria obra.
Não é a primeira vez que AC retalha suas pinturas. Jovem, negro, de bairro periférico de Salvador, esse processo de rasgar, dividir, retalhar suas telas começou em 2008, quando seu irmão foi assassinado. Logo após essa terceira perda, já que nos anos anteriores havia perdido seus pais, os retalhos aparecem em sua obra, junto com a série chamada “Álbum de Família”. A presença dos recortes aqui são frutos de uma violenta história pessoal de vida, que foi marcada por perdas abruptas, em que, num intervalo de cinco anos, o artista perdeu todo seu núcleo familiar.
Em 2016, o rasgo retorna nas suas pinturas. Poucos anos antes, em sua primeira ida à África, em 2010, Anderson participa de residência artística durante a II Trienal de Luana, na qual o artista pinta um grande mural na capital angolana, retratando sua própria família, que possui descendência Bantu. Em contrapartida, traz consigo uma série de imagens para produzir no Brasil, reforçando as noções das pontes transatlânticas, seus fluxos e refluxos. As pinturas dessa série são todas retalhadas como forma de denúncia às dilacerações, frutos dos processos escravistas.
No entanto, em sua nova série, titulada de “Tessituras da Alvorada”, os retalhos se apresentam de forma bastante distinta das séries anteriores. O corte agora vem acompanhado da costura, onde todos os retalhos são suturados pelo próprio artista, que senta na máquina de costura para unir cada um dos fragmentos, dando forma a novos suportes, totalmente irregulares. A figuração continua sendo protagonista das pinturas, mas o cenário de fundo tende à abstração.
Se antes a intenção de Anderson era expor o rasgo, na sua dimensão simbólica de ferida aberta, dores e violências, as “tessituras” foram incluídas como processo de cura desses ferimentos e dores do passado, sem deixar de assumir as cicatrizes e marcas que essas violências causaram em sua vida pessoal, além da dimensão histórica e social dessas mazelas. A palavra tessitura, nesse contexto, tem o significado atrelado à constituição de um tecido, sua textura, a tessitura da tela e as novas tramas adquiridas após serem remendadas.
Essa série tem uma ideia de superação dessas dores, mazelas e holocaustos históricos, constituídos através dos processos de colonização e escravização de povos africanos. Se, nas pinturas anteriores, o rasgo tinha o papel de denunciar e deflagrar, agora as tessituras tem a função de curar, superar e transformar essas feridas históricas, não apenas ligadas à sua realidade pessoal, mas de todo um histórico imposto ao povo negro. É tempo de seguir em frente, é “Alvorada”, o primeiro raio da manhã.
PINTURA MURALISTA
por Emanoel Araújo
A pintura grossa e expressionista de Anderson AC o põe em contato com a largueza da pintura de rua, no que ela tem de comunicativa e nos temas abordados por ele. Consciente da sua presença no mundo, ele discute na sua obra as relações sociais e estéticas do seu tempo.
Claro que vivendo em Salvador ele interage como participante da lúdica atmosfera que a terra lhe oferece.
Sua obra de grandes dimensões mostra um artista com grande folego na realização de uma obra que se desdobra no ato livre de pintar. Claro está que Anderson AC lida com ás circunstâncias de suas vivências, sem contudo ser panfletário, sem ser cartaz, mas a expressão de um pintor na perspectiva de processar uma consciência política num mundo em constante transformação e sobretudo de novas formas de expressão estética.
Anderson AC com sua pintura grossa, vai também além da apropriação de imagens reconhecidas, como fotos e situações da vida em si. Há também na sua pintura um desafio à pintura lisa, rompendo através de cortes no suporte como se dividisse em tempos e ritmos da obra.
Saudamos esse artista afrodescendente da Bahia, seu talento e seu compromisso de estar em legítimo estado de espírito com a sua terra e sua origem étnica.
Abertura:
08 de novembro de 2022
Exposição:
De 08 de novembro a 10 de dezembro de 2022













