Almandrade •

Abertura:
29 de março de 2023

Exposição:
De 29 de março a 02 de abril de 2023

Jogos secretos

 

Esculturas que são objetos pintados, planos e formas articulados. Pinturas que desejam sair da parede e ocupar o espaço como as esculturas. Coisas diferentes das outras coisas que existem por si mesmas. Aceitar as suas provocações é participar de seu jogo secreto que faz o olhar pensar e brincar. Almandrade

 

Em julho de 1995, Almandrade teve a grata surpresa de receber uma correspondência de Décio Pignatari, enviando a ele um “enorme textinho”, que viria a ser publicado no Jornal A Tarde, no dia 2 de setembro do mesmo ano. No texto, quase um poema, reproduzido na íntegra neste catálogo, assim como a simpática carta do autor, o crítico define a obra do artista como “nudismo abstrato”. Mestre da poesia concreta no Brasil, ele aponta, com aguda precisão e instigante jogo de palavras, algumas características da produção de Almandrade, entre elas: “as criações e criaturas sígnicas, que hesitam entre a bi e a tridimensionalidade; a parcimônia franciscanamente contundente dos objetos; as graciosas construções-instalações não habitáveis, amostras quase-duchampescas, quase-vandoesburguesas de um ex-Éden artístico, onde a provável ironia embutida não passa de meio-sorriso.”

A fina ironia e a criação sígnica indicadas por Pignatari já estão presentes na escolha do acrônimo Almandrade, criado pelo artista a partir de seu nome de batismo, Antônio Luiz Morais de Andrade, cujas iniciais formam a palavra A.L.M.A. Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte, Almandrade nasceu em 1953, em São Felipe, BA, e iniciou seu trabalho em Salvador, na década de 1970, nos difíceis tempos da ditadura, revestindo sua obra de caráter político, mas conseguindo o delicado equilíbrio entre geometria, poesia e contundência. Segundo Alexandre Gomes Vilas Boas: “Almandrade é um pioneiro da Arte contemporânea na Bahia, causando grandes transtornos em Salvador, durante os anos 70, com sua ácida carga poética e sua atuação questionadora diante

das sisudas instituições locais”. O artista teve uma formação solitária, criando uma poética particular, fundamentada a partir dos seguinte eixos: a poesia tradicional e as experiências visuais da Poesia Concreta, as experimentações desenvolvidas pelo Poema Processo, a arte construtiva e a arte conceitual. Sua pesquisa desenvolvida à contracorrente da arte baiana do período, conversa de perto com a produção paulista e carioca, concreta e neoconcreta. Apesar da afinidade, e de encontros confortadores com Augusto de Campos, Decio Pignatari, Helio Oiticica e Lygia Clark, entre outros, nos quais viu seu mérito reconhecido, Almandrade nunca deixou de residir em sua terra de origem, sentindo na pele as consequências de não viver no eixo Rio-São Paulo. Nem todas negativas, pois sua independência propiciou ao artista desenvolver de modo original a síntese proposta pelas vanguardas.

 

Faço parte de uma geração espremida entre o AI-5 do final da década

de 1960 e a chamada abertura política, no início dos anos de 1980.

Quase sem possibilidade de expor ou publicar alguma coisa, vivendo

numa cidade provinciana, conservadora nas questões de ordem

estética, como Salvador, me concentrei na experimentação da linguagem,

como um fazer solitário de laboratório e na busca de suportes

conceituais em outras áreas do pensar, mas sem perder o foco.

Sem um embate direto, parti do princípio de que a política da arte é

transformação da linguagem, ampliação de repertório para driblar a

censura e buscar atritos com o meio cultural.

 

Apesar das dificuldades apontadas, Almandrade, na década de 1980, participa do circuito de arte nacional, expondo, entre outros, no Salão Nacional de Artes Plásticas, Rio de Janeiro, no Salão Paulista de Arte Contemporânea, São Paulo, na I Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, Fortaleza, na I Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, e, em 1987, é convidado a participar da exposição: Em Busca da Essência: elementos de redução na arte brasileira, realizada no contexto da emblemática 19ª Bienal Internacional de São Paulo. A mostra era parte integrante do projeto geral do evento, que discutia a fragmentação das artes naquele momento, mostrando a convivência das mais diversas tendências sob o conceito “Utopia versus Realidade”. Debruçando-se sobre questão da redução, da “arte pela arte”, a exposição propunha a imediata associação dessa vertente à Utopia.

Aos 34 anos, vivendo fora do eixo Rio São Paulo, Almandrade se reunia assim a um elenco de artistas muito reconhecidos, entre eles, Arcangelo Ianelli, Amílcar de Castro, Eduardo Sued, Franz Weissmann, Sérvulo Esmeraldo e Willys de Castro. Apresentando Almandrade, no catálogo da mostra, dizia a curadora Gabriela S. Wilder: “O espaço é o campo de trabalho de Almandrade. Articulado através do jogo de planos, cores, justaposição de objetos. O domínio do espaço é a sua busca. (…) Cerebral, com traços de ironia e ludicidade, cria objetos espaciais que articulam planos e tensões com surpreendentes desequilíbrios e constante relação com o espaço em que se apresentam”.

Uma visão similar da obra do artista seria adotada por Clarissa Diniz e Paulo Herkenhoff, curadores da exposição Zona tórrida – certa pintura do Nordeste, realizada no Recife Santander Cultural, em 2012. A precursora mostra escancarava o “etnocentrismo e a incapacidade da historiografia brasileira de dar conta da contribuição para o contexto construtivo e conceitual de nossa arte, de artistas do Nordeste, como Sérvulo Esmeraldo, José Tarcísio, Montez Magno, Paulo Bruscky e

Raul Córdula, dentre muitos outros”, e assim comentava a obra de Almandrade:

 

Oriundo da poesia visual e do poema processo, na Salvador de meados dos anos 1970, o artista dá início às suas incansáveis investigações, travando uma relação de ambiguidade semântica com o espaço. Em muitas de suas pinturas, esculturas, objetos ou diagramas, a espacialidade será a base sobre a qual Almandrade problematiza a relação entre significante e significado, constituindo experiências espaciais cujo instável equilíbrio físico de tantas vezes é o eixo sobre o qual se desequilibram os sentidos.

 

Ao longo dos 50 anos de sua carreira Almandrade se apropria das mais diferentes mídias: poemas, poesia visual, instalação, pintura e desenho, transitando com igual domínio entre elas, e usando com a mesma maestria, o espaço, a linha, a palavra, o preto e branco e a força da cor. Em sua obra estão presentes os trabalhos de cunho político e comportamental, realizados com extrema precisão e sutileza, desequilibrando verdades, objetos que desafiam o olhar do espectador com polida ironia, pinturas e objetos em madeira com mensagens secretas, peças rígidas de intenso cromatismo, exatas, mas calorosas, remetendo ao singelo concretismo das fachadas nordestinas.

Esse tipo de visão múltipla, lúcida e lúdica, rascante e fluida, rigorosa e sensível, que caracteriza a produção de Almandrade, só tem par na arte brasileira na obra de Willys de Castro. Teórico extremamente preciso de sua própria obra, como o é Almandrade, assim escreveu Willys sobre seus Objetos Ativos na apresentação do catálogo de exposição na Galeria Aremar, em 1960.

(…) A nova obra não é estanque, ela translada os seus significados para o espaço circundante, estabelecendo topicamente novas relações e concordâncias, pois, sem recorrer às referências exteriores, ela coleta de si mesma os dados necessários à sua comunicação, retirando-os parte do real e parte do virtual. Esse novo objeto, investido de tal atividade, torna-se um inteiro caracterizado pela sua autonomia e unicidade, e, por isso, altamente diferenciado das obras convencionais. Contendo eventos dentro de seu próprio tempo – iniciados, transcorridos, findados, reiniciados etc. – e ali demonstrados clara, fluente e indefinidamente, ele inaugura-se no mundo como um instrumento de contar a si próprio.

Não por acaso é imediata a conexão com a epígrafe de Almandrade: o instrumento de contar a si próprio, é o jogo secreto que nos provoca.

 

Denise Mattar

2023

A PERSISTÊNCIA  DO NUDISMO ABSTRATO

 

Pensei em elementarismo, despojamento, abecedarismo geométricos, mas acabei por optar pela ideia de nudismo abstrato, para tentar caracterizar a postura e a impostação de Almandrade ante suas criações  e criaturas sígnicas que hesitam entre a bi e a tridimensionalidade, em duas ou três cores, em duas ou três texturas.

A parcimônia desses objetos franciscanamente contundente, desenhados, designados (designed), compostos segundo uma grafia de cartilha, porém enganosamente simplificada e simplista, posto que metafísica.

Criam um campo significante que parece rechaçar instruções extratexto, mesmo quando inclui algum elemento metafórico in memoriam Dadá.

Meteoritos geométricos do pensamento, taquigrafia precisa de uma claríssima visão cuja totalidade se ofuscou, indício e impressão minimal de um evento artístico-mental ocorrido no panorama ecológico da arte do século XX,  como um  pássaro em extinção,  aparição de  ordem  inegavelmente metafísica, essência e forma divinas (diria Baudelaire) do pássaro nu da poesia e de seus amores descompostos.

Um nudismo Proun (El Lissitsky) nos trópicos, lembranças metonímicas do paraíso, graciosas construções-instalações não-habitáveis, amostras quase-duchampescas, quase-vandoesburguesas de um ex-Éden artístico, onde a provável ironia embutida não passa de meio-sorriso.

Esses seres correta e rigorosamente nus, o olho os colhe por inteiros, como objetos cabíveis num bolso. E há música neles, mas não é sequer de câmara – é de cela, nicho e escrínio: são microtonais, minideogramas sólidos à Scelsi.

O Almandrade capricha nas miniaturas de suas criaturas, cuja nudez implica mudez, límpido limpamento do olho artístico, já cansado da fantástica história da arte deste século interminável, deste milênio infinito.

 

Décio Pignatari (1995)

Publicado no Jornal A Tarde, Salvador (BA), em 02 de Setembro de 1995.

Abertura:
29 de março de 2023

Exposição:
De 29 de março a 02 de abril de 2023