Anderson AC •

Abertura:
08 de November de 2022

Exposição:
De 08 de November a 10 de December de 2022

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DO RASGO A CURA

por Thais Darzé

 

A primeira claridade da manhã que desponta no horizonte, aqueles primeiros instantes que anunciam a chegada de um novo dia, é um novo ciclo num universo de possibilidades que se renovam e se apresentam todos os dias a cada manhã. No contexto religioso afro-brasileiro é também o horário que se iniciam diversas cerimônias nas comunidades de terreiro. É justamente por essa ótica que o artista plástico Anderson Cunha escolheu “Alvorada” como título de sua exposição, que para ele significa um processo de renovação dentro de sua própria obra.

Não é a primeira vez que AC retalha suas pinturas. Jovem, negro, de bairro periférico de Salvador, esse processo de rasgar, dividir, retalhar suas telas começou em 2008, quando seu irmão foi assassinado. Logo após essa terceira perda, já que nos anos anteriores havia perdido seus pais, os retalhos aparecem em sua obra, junto com a série chamada “Álbum de Família”. A presença dos recortes aqui são frutos de uma violenta história pessoal de vida, que foi marcada por perdas abruptas, em que, num intervalo de cinco anos, o artista perdeu todo seu núcleo familiar.

Em 2016, o rasgo retorna nas suas pinturas. Poucos anos antes, em sua primeira ida à África, em 2010, Anderson participa de residência artística durante a II Trienal de Luana, na qual o artista pinta um grande mural na capital angolana, retratando sua própria família, que possui descendência Bantu. Em contrapartida, traz consigo uma série de imagens para produzir no Brasil, reforçando as noções das pontes transatlânticas, seus fluxos e refluxos. As pinturas dessa série são todas retalhadas como forma de denúncia às dilacerações, frutos dos processos escravistas.

No entanto, em sua nova série, titulada de “Tessituras da Alvorada”, os retalhos se apresentam de forma bastante distinta das séries anteriores. O corte agora vem acompanhado da costura, onde todos os retalhos são suturados pelo próprio artista, que senta na máquina de costura para unir cada um dos fragmentos, dando forma a novos suportes, totalmente irregulares. A figuração continua sendo protagonista das pinturas, mas o cenário de fundo tende à abstração.

Se antes a intenção de Anderson era expor o rasgo, na sua dimensão simbólica de ferida aberta, dores e violências, as “tessituras” foram incluídas como processo de cura desses ferimentos e dores do passado, sem deixar de assumir as cicatrizes e marcas que essas violências causaram em sua vida pessoal, além da dimensão histórica e social dessas mazelas. A palavra tessitura, nesse contexto, tem o significado atrelado à constituição de um tecido, sua textura, a tessitura da tela e as novas tramas adquiridas após serem remendadas.

Essa série tem uma ideia de superação dessas dores, mazelas e holocaustos históricos, constituídos através dos processos de colonização e escravização de povos africanos. Se, nas pinturas anteriores, o rasgo tinha o papel de denunciar e deflagrar, agora as tessituras tem a função de curar, superar e transformar essas feridas históricas, não apenas ligadas à sua realidade pessoal, mas de todo um histórico imposto ao povo negro. É tempo de seguir em frente, é “Alvorada”, o primeiro raio da manhã.

 


PINTURA MURALISTA

por Emanoel Araújo

 

A pintura grossa e expressionista de Anderson AC o põe em contato com a largueza da pintura de rua, no que ela tem de comunicativa e nos temas abordados por ele. Consciente da sua presença no mundo, ele discute na sua obra as relações sociais e estéticas do seu tempo.

Claro que vivendo em Salvador ele interage como participante da lúdica atmosfera que a terra lhe oferece.

Sua obra de grandes dimensões mostra um artista com grande folego na realização de uma obra que se desdobra no ato livre de pintar. Claro está que Anderson AC lida com ás circunstâncias de suas vivências, sem contudo ser panfletário, sem ser cartaz, mas a expressão de um pintor na perspectiva de processar uma consciência política num mundo em constante transformação e sobretudo de novas formas de expressão estética.

Anderson AC com sua pintura grossa, vai também além da apropriação de imagens reconhecidas, como fotos e situações da vida em si. Há também na sua pintura um desafio à pintura lisa, rompendo através de cortes no suporte como se dividisse em tempos e ritmos da obra.

Saudamos esse artista afrodescendente da Bahia, seu talento e seu compromisso de estar em legítimo estado de espírito com a sua terra e sua origem étnica.

Abertura:
08 de November de 2022

Exposição:
De 08 de November a 10 de December de 2022