Abertura:
13 de November de 2007
Exposição:
De 13 de November a 07 de December de 2007
Como materiais, o mármore, o granito, o bronze e a madeira. Como formas, volumes e vazios, com luzes e sombras, e uma geometria algumas vezes abstrata. Nas suas superfícies lisas, formas compactas, em límpidos espaços criados pelos cortes, eliminações e sínteses, acarreta uma tensão entre tradição e modernidade, e fazem das esculturas de Evandro Carneiro “um instrumento de busca da beleza”, como disse o crítico Marcus Lontra Costa, ou nas palavras da escritora Lélia Coelho Frota “um escultor que tem a consciência da mão e a entrega ao inconsciente do instante, ativo em plena pós-modernidade, e que através do motivo aparentemente tão simples e milenar do corpo, fala de Eros como um ritual de passagem que remete às origens da vida”.
Composta de 26 esculturas em granito, bronze e mármore de Carrara, com dimensões variadas e tendo o corpo humano como principal temática, o título da mostra é ‘Universo Feminino. A exposição traz no catálogo textos de Frederico Morais, Myriam Fraga, Lélia Coelho Frota e Wilson Coutinho.
Um universo densamente feminino / Frederico Morais
Na obra de Evandro, a presença da mulher é avassaladora. Esculpidas em mármore ou granito, modeladas em gesso ou bronze, as mulheres reinam absolutas. Elas aparecem sentadas, arqueadas, de perfil, em repouso, classicamente apolíneas ou dionisiacamente barrocas, maternais, mas também lânguidas e fogosas, deixando-se consumir em marmóreas labaredas. Ás vezes, são apenas torsos, reclinados, desfilantes, empilhados, como índices numéricos. Ou cabeças, com “fundidos cabelos”, cacheados, trançados, de perfil clássico, helicoidais, ou que se fragmentam, ainda mais, em ancas graciosas e seios que se multiplicam onírica e magritianamente sobre o corpo. Mulheres: japonesas, africanas, tigresas, sabinas, tanagras, siamesas, eva-serpente, eco clamando por narciso, vênus dacostianas, de formas calipígias. Enfim, mulheres que não reluta chamar pelos nomes – danielle, marcella, melania, sirena, anne, patrícia. Neste universo densamente feminino, o homem é pouco mais que um apêndice, ainda que desfrutando de poder e força física: generais, centuriões, guardiões de algum obscuro templo, narciso – que, surdo aos apelos de eco, contempla sua própria imagem no espelho d´água -, heliastas reunidos ao nascer do sol, e apolo e dédalo, e ícaro, e midas, e netuno, inexoravelmente presos a seus destinos de seres mitológicos. Escultor de estirpe clássica, Evandro aqui também cumpre o destino que já havia sido traçado por Jorge de Lima em conferência que pronunciou na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1935: buscar “o mais alto plano poético, que é uno, invariável, adstrito aos grandes temas, pois somente estes podem originar obras duradouras”.
Corpo feminino como ritual de passagem / Lélia Coelho Frota
Mantém-se entre nós, como de resto no mundo inteiro, o espaço restrito para a escultura, que Luis Marques já observara no Brasil pós-20, ao escrever sobre Brecheret: “o de uma sociedade avara de monumentos, dos quais essa arte depende.”
Por isso é bom ver confirmada no trabalho de Evandro Carneiro a vocação para a escultura que, interrompida durante vinte e um anos – desde a sua formação precoce aos 14 anos de idade, com Ivan Serpa e Ione Saldanha, continuada na tradição acadêmica com uma aspiração ao desenho clássico na antiguidade – é retomada agora com a coragem de quem já viu o melhor do que se fez em arte e resolve enfrentar os seus antecessores fortes, como coloca Harold Bloom para o jovem poeta, ao falar da angústia da influência que todo artista experimenta ao abordar a questão da criação, o mergulho revelador do passado, ou melhor, no já feito, é o desafio pulsante no dualismo tradição/modernidade, o enfrentamento vivo do enigma daquelas forças de que falava Klee, que nos fazem “um com o universo”. Essa é a porta estreita pela qual deva passar todo criador, para dali trazer, projetando-a à frente, a experiência dos predecessores acrescida da sua…
… Evandro Carneiro não foge à pedraria do caminho da criação e enfrenta e ama – na busca e nos resultados da sua expressão pela escultura – antecessores fortes, como Maillol, Boccioni, Brancusi, o próprio Bracheret, pintores como Rego Monteiro e Wilfredo Lam, os mestres do nu japonês e das grandes tradições tribais africanas. Os aspectos arcaicos do tribal vão atraí-lo cada vez mais, nessa longa e sentida representação da arquetipia do corpo feminino. Inicia-se em 91 a sua série de composições longilíneas, de aspecto totêmico, com o predomínio de curvas torsas, e superfícies tão polidas e tratadas como o artefato que cai do céu no filme ‘2001 do kubrick. A serena sensualidade anterior presente no seu trabalho, sempre contida pelo limite do arquétipo, e que coexiste com o domínio da técnica, vai aos poucos se transmudando em colunas inquietantes, orgânicas, já agora quase sacralizantes, totêmicas mesmo, na sondagem de um eros/mulher abissal, hermético, primevo: o eros da fonte da vida, com se vê nas sirenas em bronze (1992) e granito (1992), e na extraordinária ‘femina’ (1992), para arquearem-se mais ainda nas bailarinas e ameaçadoras formas de enigma (1992).
Estamos diante de um escultor que tem a consciência da mão e da entrega ao inconsciente do instante, ativo em plena pós-modernidade, e que através do motivo aparentemente tão simples e milenar do corpo, fala do Eros como um ritual de passagem que remete às origens da vida.
Abertura:
13 de November de 2007
Exposição:
De 13 de November a 07 de December de 2007















